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Sobre Alana

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"Quem vive no morro não tem sonho." - Edna, mãe de Alana, em resposta a um repórter que perguntara sobre qual era o sonho de sua filha

João Hélio Fernandes ficou conhecido pela barbárie sofrida por ação de três assaltantes, há pouco mais de três anos. O sofrimento e o horror de ver ou imaginar o corpo de uma criança de seis anos sendo arrastada por um carro em alta velocidade por mais de sete quilômetros comoveu o país. De uma simples nota na página policial do jornal pela manhã, tomou conta dos telejornais ao longo de semanas, virou matéria no Fantástico, capa da Veja, da Época, da Istoé, nome de praça dias depois, motivo de catarse coletiva de pais e mães Brasil afora. Os bandidos foram localizados e presos em tempo recorde, execrados em praça pública e só não foram justiçados por serem de "boa família". Até hoje, João Hélio habita corações e mentes do imaginário popular.

Alana morreu dias depois de João Hélio. Era uma adolescente, a mais velha dos cinco filhos de Edna Ezequiel, uma diarista que morava o Morro dos Macacos, uma típica favela do subúrbio carioca. Alana tinha diversas responsabilidades, comuns para quem a vida não rendeu luxos. Dentre elas, tinha como rotina levar e buscar os irmãos mais novos na creche da comunidade. Numa destas idas e vindas, Alana e seus irmãos ficaram no meio do confronto entre policiais e traficantes do morro, algo também comum de suas realidades. Por obra do acaso, do destino ou da realidade violenta carioca, Alana recebeu um tiro fatal, morrendo quase que instantaneamente. O sofrimento e o horror de ver ou imaginar uma adolescente de doze anos agonizando em uma viela do morro comove. Logo após, surge sua mãe, impotente diante do destino que a roleta russa da miséria e da fome reservam para quem não mora na Zona Sul. A foto de seu desespero latente estampa a primeira página do jornal, virou nota ao longo dos telejornais durante o dia, foi mencionada no Fantástico, na Veja, na Época, na Istoé, só não virou nome de nada. Nem da ruela que presenciou sua morte. Até hoje não se sabe de onde partiu o tiro. Na missa de sétimo dia de Alana, sua mãe veste uma camisa com a foto de uma adolescente vítima de violência. Não era de sua filha.

Depois de João Hélio e Alana, muitos outros inocentes foram mortos. Infelizmente, muitos ainda morrerão, vítimas de uma guerra particular. No entanto, qualquer notícia sobre os assassinos de João Hélio, ainda causam interesse. Até, um dia, caírem no esquecimento.

Já Alana não teve a mesma sorte. Foi esquecida bem antes.

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