Impossível não ficar chocado com as cenas de caos e barbárie que chegam do Haiti via satélite a todo tempo o tempo todo. O nível de catástrofe que um terremoto causa, embora não nos seja muito íntimo (em compensação, temos os deslizamentos, as enchentes, a seca...), vão além do cenário de desolação e das frias manchetes dos jornais. O sofrimento nos une e nos aproxima, lembrando de como somos, ainda, vira-latas nesta briga de cachorro grande, que é a política de globalização.
O Brasil, como se sabe, comanda a equipe de ajuda “humanitária” no Haiti já há algum tempo. Na verdade, uma forma que a Organização das Nações Unidas encontrou para fazer uma social entre os diplomatas enquanto não entra para valer em questões mais sérias como, por exemplo, a ocupação norteamericana no Afeganistão e no Iraque, as cobaias humanas da indústria farmacêutica na África ou a política aintissemita de Israel, cada vez mais arrogante. Diante da “missão”, lá fomos nós, de baioneta em punho, garantir a paz (será?) em um pedacinho do Caribe que não interessou aos “donos do mundo”, já que lá não tem petróleo ou nenhum governante pentelho para contestá-los.
Desde então, fazemos nosso dever de casa direitinho junto à ONU, para garantir, quem sabe, uma vaguinha na repescagem lá no Conselho de Segurança da entidade e, finalmente, poder... Poder com p maiúsculo. Aí, o Haiti, país com maior população negra das Américas e a mais pobre também (coincidência...), também fica localizado no meio de uma falha tectônica, ou sei lá o que isso significa, o que causou a tragédia.
Nós, alunos aplicados da cartilhinha da ONU que somos, estamos fazendo a nossa parte, enviando equipes de apoio, suprimentos e dinheiro. Nada mais justo. A grande questão, no entanto, é como os “donos do mundo” estão se empenhando em mostrar que ainda mandam no pedaço e que como muita gente ainda se comporta como se de fato o fossem.
Ainda hoje, veio a notícia de que os Estados Unidos estão controlando as saídas do Haiti, talvez para impedir uma fuga em massa de refugiados. O Obama já fala em mostrar a liderança do mundo livre S.A. para socorrer as vítimas. Antes, o cônsul haitiano, no Brasil há 35 anos, culpou o seu mau (ou seria mal?) português para amenizar o comentário preconceituoso de que a catástrofe era resultado de uma “maldição africana”, já que “eles mexem muito com a macumba” (meu Deus, parece discurso do bispo Macedo...). Trocando em miúdos: mudam as caras, mais ainda temos que pedir a bênção ao Tio Sam para fazer ajuda humanitária e a diplomacia ainda age como se vivêssemos durante a partilha da África, no século XIX.
Mas nem tudo está perdido! Li a informação de que amanhã parte da venda dos big macs será destinado a doações para o Haiti, que não é aqui. Ou seja, as partes do sanduba referentes ao entupimento de artéria e do infarto, ainda vão diretamente para os cofres do palhacinho.
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