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As formas não me querem dizer muita coisa. Caminho pelo calçadão à noite, estou dentro da fileira de camelôs e eles não me mostram nada, estou no meio dos carros parados em frente às lojas fechadas e eles não me buzinam nada; os semáforos, a música no rádio comprado no Paraguai ligado clandestinamente no poste público não me toca nada.
O tempo não me fornece um antídoto, os sinais na rua não me abrem nada. O tempo... se é que ele existe, manifesta-se em finas camadas esparsas, como gotículas d’água em frigideira quente, só se faz presente em meus passos, nas barracas que se afastam e reluzem. Estou preso a este espaço contínuo de um mundo novo a contra-gotas, estou cercado de coisa nenhuma, mas continuo vivo. O mundo mostra-se de maneira estúpida e acho-me estúpido. Sou eu e mais nada. O cheiro de óleo queimado proveniente da carroça de frituras deixa-me enjoado, a visão das pessoas comendo seus respectivos cachorros-quentes mareiam-me. Estou pisando nas lamentações que se esconderam na sarjeta e isso me causa uma sensação diferente de frio, apesar de ser primavera no Rio de Janeiro. Não sinto a graça da noite, mas o cansaço das paredes; não sinto a riqueza dos edifícios, mas a poeira úmida dos portões. O nada, agora, toca-me, presencio a sua grandeza, reconheço o seu alicerce, ele é a maior coisa que eu já experimentei. Ele é enorme, é infinito. Tento me sentar, o nada tomou conta de mim. Do nada, nada pode provir, porém, eu sou algo e de mim pode-se provir tudo, pois eu sou átomo. Sou todo nada, compreendo o seu enredo, entendo a areia em meus pés, deslizo pela sua essência e ela é neutra. Onde estou? O silêncio é arrebatador, explosões à minha volta, conglomerados, matérias sólidas, gasosas estão por toda parte, e, neste momento, sinto a presença do Todo e da descoberta do mundo.
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