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AS MÁSCARAS DA INFORMAÇÃO

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            Ultimamente, não tenho assistido à televisão. Questões técnicas que não vêm ao caso. Mas nem por isso deixo de acompanhar o que vem acontecendo nos últimos dias, em particular, mais um capítulo da guerra nada santa entre as duas maiores redes de televisão na atualidade: Globo e Record. Não quero dispor aqui sobre religião ou crenças, nem sobre uma pretensa perseguição religiosa. Afinal, graças à Deus, ainda somos um país onde temos liberdade de acreditar e por fé em qualquer coisa. Até mesmo no homem. O que gostaria de escrever em poucas linhas é como um fato pode ser (e é) mascarado, de acordo com a cara do cliente e a vontade do dono da emissora.

            Primeiro, o fato.

O Ministério Público do Estado de São Paulo acatou nesta semana denúncia contra o “bispo” Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, e mais 09 pessoas ligadas à organização sob a acusação de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Segundo a denúncia, há indícios de utilização de dinheiro de doação dos fiéis, que a princípio, destinam-se exclusivamente a ações sociais e de caridade, na criação de uma rede empresarial privada, beneficiando diretamente a seus sócios, com vistas ao lucro. Ainda, de acordo com o MP, esta rede se valia de duas empresas, criadas em nome de laranjas, que realizou compras em grande parte de emissoras de rádio e tv, além de gráficas e demais empreendimentos. Para isso, eram desviadas doações dos fiéis à Universal, a título de “empréstimo”, a estas empresas. Em outras palavras, o que o Sr. Macedo e seus compadres fizeram foi o mesmo erro primário que levou à cadeia os bicheiros há algum tempo: sonegação de impostos. O desfecho deste caso, fatalmente, será o mesmo: a Beija-Flor continuará luxuosa na avenida e meia dúzia de iludidos destinará a grana economizada do cigarro ou da cervejinha para os bolsos do pastor, a título de serem “abençoados” com fuscão no juízo final e diploma de bem comportados.

            Agora, as máscaras.

Terça-feira, Jornal Nacional. O casal telejornal do videoclipe informativo destinou metade do seu milionário tempo para tratar do fato. Do fato, apenas três ou cinco. Do restante, ressuscitaram um compilado de imagens, entremeados com valores e fontes que pareciam saídas do comercial da Ricardo Eletro, além daquele episódio de 1995, quando caiu o pano da Universal, aquele que membros mais chegados ao “bispo”, além do próprio, nos premiou com uma aula de como pegar grana dos outros os convencendo de que estão se dando bem. Só faltou o chute na santa. Tudo isso colocando as palavras Rede Record no meio, quase em um mantra. No intervalo, surge uma propaganda pedindo doações para o criança esperança, junto àquela baboseira de como você consegue ser um cidadão de bem e tornando o mundo melhor e mais colorido com um simples telefonema. Fim do primeiro ato.

            Segundo ato. Quarta-feira, Jornal da Record. O casal telejornal do videoclipe informativo destinou metade do seu milionário tempo para se defender das acusações. Da defesa, quase nada. Do restante, fizeram um resumão do Beyond Citizen Kane, com um compilado de imagens, entremeados com políticos da época da ditadura até o Lula, além daqueles episódios já conhecidos de quem viu o documentário: a omissão da informação sobre o comício das Diretas Já, em 1984, e a montagem da reportagem do debate presidencial de 1989, beneficiando claramente Collor em relação a Lula. Só faltou o chute na santa. Tudo isso colocando as palavras Rede Globo, quase em um mantra. Ao final da reportagem, surgem pessoas falando bem do “bispo” Macedo, dizendo que como ele é um homem de bem e que ficou milionário graças (a Deus?!?) seus próprios esforços. Fim do segundo ato.

            Diante disso, proponho um terceiro ato.

            Terceiro ato. Horário nobre, Jornal do horário. Os casais telejornais dos videoclipes informativos destinam parte de seus milionários tempos trocando de bancada entre si e leem ipsis litteris as mesmas notícias, veiculadas nos telejornais dias antes. Como em Melânia, uma das Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, mantêm-se fatos, imagens e acusações. As personagens, agora trocadas, assumem a máscara de seus donos e passam a noticiar a mesma informação, fazendo caras e bocas, como em uma mímica. Só falta o chute na santa. Tudo isso entremeando a palavra verdade no meio, quase em um mantra. Ao final, os casais dão-se as mãos e cantam uma canção sobre um mundo melhor e mais colorido, como em um comercial do Méque Lanche Feliz.  Pano rápido. Fim da farsa.

            Não é de hoje que a informação nos vem fragmentada. Também não é de hoje que a guerra do ibope ultrapassa os limites do aceitável (e do ridículo). Mas duas redes de influência e dimensões nacionais invadirem casas de gente de bem que, de saco cheio da rotina, do trânsito e da falta de dinheiro, ligam seus aparelhos para sua dose diária de morfina elétrica e assistem a um espetáculo como este, o é melhor desligarem seus aparelhos e acompanhar a briga dos vizinhos na rua. E a informação? E o fato? E a verdade? E o Sarney? Quem se importa? O importante é torcer para que caia mais um avião, de preferência com mais de 100 passageiros; que um atleta brasileiro de beisebol conquiste algum título para virar um herói nacional ou que morra um mega pop star, se possível, da forma mais trágica, para que o assunto renda (e venda) por dias a fio. Por hora, videoclipes informativos e discussões de lavadeiras em horário nobre.

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