A classe média, de “opinião”, sempre teve como características uma postura conservadora e preservacionista dos costumes, uma profunda hipocrisia nos seus atos, uma busca incessante por culpados por suas próprias mazelas e a busca de um ideal de vida de comercial de margarina.
No domingo, nas missas ou cultos, a famíla feliz se senta nas primeiras fileiras, lidera frentes de defesa dos valores cristãos e joga a culpa na filha do vizinho. Ao longo da semana, papai não se exime de comer a empregadinha ou o travesti da Atlântica e joga a culpa no pecado, pedindo perdão a Deus; Junior se entorpece de merda na esquina da faculdade e joga a culpa nos amigos, prometendo nunca mais falar com eles; a princesinha vai com a mamãe à clínica abortar o “deslize” e joga a culpa no namorado, que não quis o casamento. No sábado, todos agem como se vivessem na propaganda do queijo philadelphia, apesar da sífilis.
A mídia, também de “opinião”, cumpre o seu papel de classe média.
No programa dominical, o apresentador inicia seu programa debaixo de um viaduto. De lá pinça um morador de rua e sua família, lhe promete uma vida nova, sem antes jogar nele a culpa por sua condição miserável. Logo após, submete-o ao crivo do auditório que, como em um zoológico, aplaude, se comove, brinca com o enjaulado, agradecendo intimamente por não ser como ele. Ao final, o apresentador afirma tirá-lo da rua, realizando seu sonho de gravar um CD, solução para todos os seus problemas. Todos nós vamos dormir felizes, agradecendo a Deus por não sermos miseráveis e certos de que estamos contribuindo para um mundo melhor, junto com o teleton esperança e o McPorcaria feliz.
Ao longo da semana, surge a notícia que um rapaz, de boa família, foi preso após estrangular a namorada. Na reportagem, papai empresário lamenta que seu “campeão” tenha cometido a tragédia e joga a culpa na polícia, que poderia ter evitado o pior; o filho promissor não entende como tudo aconteceu e joga a culpa na pedrinha de crack, que poderia não ter usado. Logo após, a mamãe psicóloga que bancou (com muita grana) a internação do filho joga a culpa no governo, pela situação em que em que seus filhos são expostos às drogas. Ao final, o comentarista se mostra horrorizado com o fato e joga a culpa no governo e na polícia, cobrando deles uma atitude firme.
Na sexta, o caveirão invade o beco, mata um, fere dois e prende três; o governo invade o vão do viaduto, expulsa os miseráveis, leva os viciados de boa família e esquece os demais à própria sorte; o programa sensacionalista aplaude a atitude, berra que não se pode sustentar vagabundo e questiona a estudante que saiu escoltada da faculdade por usar uma minissaia, taxando-a de vagabunda, culpando-a por todas as mazelas do mundo. Mais uma vez, vamos para a cama com a sensação de dever cumprido.
No sábado, agimos como se vivêssemos no shopping, apesar das perebas que insistimos em esconder com base e perfume francês.
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