Um amigo, uma vez, disse-me que a música tem primazia em relação às outras manifestações artísticas. Como exemplo, dizia que é praticamente impossível imaginarmos um filme sem trilha sonora, mas que, por seu turno, a música dispensa o auxílio de imagens ou até mesmo letra.
Tem certa razão esse meu amigo, embora deva informar que trata-se de um músico. De fato, a música parece ser daquelas coisas que nos acompanham durante toda a vida, quase que (ou seria?) como uma manifestação inata. A forma como ouvimos um pequeno riacho e alguns pássaros num interior distante ou o burburinho de ruídos e vozes da grande e saturada metrópole, tudo parece compor uma espécie de fundo musical, antes mesmo da música propriamente dita.Desde que nascemos somos embalados em “trilhas” de ninar, de brincar e de aprender. Depois, entramos em contato com a música enquanto manifestação, digamos, organizada. Passamos, então, a atribuir-lhe valor de uso (dançar, gostar, refletir, manifestar etc.) e valor de troca (a indústria cultural que o diga...).
Nas artes, desde a ópera a música é o fio condutor de histórias; mas foi o cinema, sem dúvida, que consolidou a vinculação da música a situações e sentimentos que universalizaram o formato de utilização das trilhas sonoras. É improvável que alguém veja o desfecho de uma linda história de amor tendo ao fundo uma melodia atonal, forte e incisiva, tipo nos filmes de suspense ou terror; não há notícia de um assassinato com fundo melódico doce!
Assim, a trilha sonora muitas vezes antecipa ou revela tramas de filme e novelas. Na “vida real” (veja a que situação a ficção nos leva: é possível uma “vida irreal”?), vinculamos determinadas músicas ou ritmos a situações ou fases que atravessamos.
Só que há um problema: os acontecimentos em nossas vidas não são precedidos de trilhas sonoras. Quando surge uma pessoa que pode ser o grande amor, não tem música. Segundos antes de um assalto ou um acidente automobilístico, não “toca” nada. Um político enganador que encanta com a sua oratória não vem acompanhado de uma musiquinha que nos faça ficar de orelha em pé. Um grande amigo que precisa, naquele momento, de uma atenção especial também não nos faz ouvir melodia alguma. A realidade é muda.
Ou não? Ou será que fomos viciados a ouvir determinadas “trilhas” e a vida toca outras?
Talvez haja outras músicas para além das melodias da indústria cultural e possamos ouvi-las com a reeducação de nossa audição interior, Talvez, se dermos chance à (re)percussão dentro de nós de tudo aquilo que vivenciamos. Se utilizarmos também o silêncio e o tempo para estabelecermos o andamento de nossa existência.
Talvez assim consigamos ouvir as trilhas sonoras da vida que teimam, do jeito delas, em ouriçar nossa pele, nosso coração, nosso cérebro e nossa alma.







